Livros

‘Nem todas as baleias voam’, Afonso Cruz

Segundo livro que leio de Afonso Cruz.
Afonso Cruz consome-nos as vísceras.
Se soubesse que a morte se aproxima, o que colocaria dentro de uma caixa de sapatos?
« Se morrer antes de ti – pode acontecer -, gostava muito que coxeasses por mim. »
Só não gostei do final.

« A flor é a dor da raiz, a luz, a dor das estrelas. Homens de gosto coleccionam quadros ou estátuas. O meu amigo colecciona dor. Não em galerias ou museus, como quem se dedica ao estudo biológico das várias formas de sofrer. Quando uma chaga aterradora o surpreende, não a envazilha num frasco, guarda-a no coração. Conta-lhe os ais, não os micróbios. Em vez de a analisar, decompondo-a, analisa-a beijando-a. No seu laboratório químico existe apenas um reagente que dissolve tudo: lágrimas. »

« Se Deus falasse, teria a voz do Johnny Cash. É melhor do que a bíblica voz de trovões. »

« A maldade, de alguma maneira aberrante e perversa, é uma espécie de estrume. E a vida, por mais incompreensível que seja na sua génese e no seu cumprimento, nasce disso, da terra, do barro, da lama, da merda, e eu, envergonhado, contido, penso que é a maldade a terra mais fértil para a bondade e que o contacto com o fel faz nascer a coisa mais doce. Acho que todos mudamos em contacto com o mal. É o motor. »

« Sentiu uma dor entrar-lhe no peito, como se fosse um enfarte, mas era apenas o prenúncio de uma solidão que todas as despedidas carregam consigo e despejam em peitos vulneráveis. »

« Tristan achava que os pais eram eternos: envelheciam, mas não morriam nem desapareciam. Habituamo-nos todos a que estejam sempre presentes para nos tratarem de uma constipação, de uma ferida no joelho, dos dolorosos revezes passionais da adolescência, agarram-nos quando tropeçamos, estão sempre lá, e é inimaginável que deixem de estar; por isso, o túmulo de um pai ou o desaparecimento de uma mãe parecem uma aberrante incongruência no tecido do cosmos. É uma espécie de ofensa do destino cair e não ter um pai a segurar-nos. »

« Recordou a primeira vez que viu o pai a dormir ou que teve essa consciência. Lembrou-se do medo que isso lhe provocou: se ele dorme, quem vela por mim? Foi a primeira vez que sentiu a solidão e o pânico de não haver alguém a olhar por ele, se nem o pai, quanto mais Deus. »

« vamos criando afecto pela dor, ela diz que estamos vivos, está sempre ali, presente, e essa fidelidade é importante, como se fosse um amigo. »

« A arte é uma doença da expressividade humana. Acontece quando já não somos capazes de dizer o que sempre dissemos. De repente, sai um traço novo a abrir uma ferida na sociedade. No pensamento. Nas certezas. O facto de o Tristan ver as emoções, de as poder agarrar, abraçar, pontapear, deixa-me invejosa. Às vezes também gostaria de dar banho aos meus sentimentos. Penteá-los. Levá-los a passear. »

« Quando ela me beijou hoje, na rua, foi tão bom que mal cheguei a casa tive de me descalçar. »

« Olhar para a destruição do nosso passado faz-nos sofrer. A maior parte das lágrimas são de pedra, mas escorrem por momentos, apenas para conseguirem fugir de dentro do corpo, porque não aguentam mais viver ali. »

« Os milagres acontecem, Isaac, mas costumam ser mais espectaculares, do género andar sobre as águas e curar leprosos, não fazer desaparecer batom e rímel. »

« O nada é o que resta de uma dor que se torna insignificante. »

« Estou à espera de que a felicidade comece a crescer como os bebés no útero das mães e que um dia nasça e chore e queira mamar e nós eduquemos a felicidade e a levemos à escola para que saiba ler as letras das nossas veias e fazer contas de multiplicar com a nossa saliva, estou à espera de um beijo daqueles que são dirigidos somente a uma pessoa, e não daqueles que se dão a pensar em alguém que está longe, estou à espera que o dia chegue ao fim e que não comece outro, porque os dias são uma chatice. »

« Tocar, para ele, era impedir os dedos de se mexerem. Muitas vezes pensava assim na música: um dó sustenido que poderia ter sido, um fá que quase se pronunciou, um si que lhe ficou preso na unha, um lá bemol que tropeçou. »

« A mais alta expressão musical não é o silêncio, como se diz, mas percebermos, numa melodia qualquer, que um pontapé é um movimento que embala ao mesmo tempo que fere. Que o arco que o pé descreve ao dar o pontapé é tão redondo e envolvente como uma valsa, como um berço que adormece bebés, e que isso, sem impacto, não vale nada. Sem a dor, sem a violência, a música só serve para os tops de vendas. »

« A música é algo selvagem que dá nos pés. Quando se começa a tocar, os pés começam a bater. O corpo mexe-se. Isso não se consegue com a literatura nem com a pintura. Uma pessoa não consegue pôr os corpos a mexerem com Picasso. Ninguém se põe a dançar em frente ao Guernica »

« Tu não eras somente a mulher que aparece num passaporte, eras a música, a própria música, antes de ser tocada, antes de ser ouvida, antes de ser imaginada. Nunca desafinámos. Eu dava um tom e tu davas-me a vida e eu tocava-te ao piano. »

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