Livros

‘O Idiota’, Fiodor Dostoievski

“O Idiota” vem catalogado como uma das cinco grandes obras de Dostoiévski. Apesar de ter o género literário apaixonante a que um leitor de Dostoiévski está habituado, que nos faz queimar as pestanas em longas narrativas e diálogos, não compreendi o herói da história.

Dostoiévski apresenta-nos o Príncipe Míchkin, ícone de simplicidade, bondade e altruísmo, e o modo como este homem, a existir, nunca poderia funcionar numa sociedade que é corrupta e egoísta em todas as suas dimensões. Diz-se que a ideia é ligar este herói a Jesus Cristo e D. Quixote, mas parece-me uma comparação forçada. A sociedade, com todos os seus jogos de poder e corrupção, destruirá os puros – uma tradição milenar que remonta à era de Cristo. A ideia do homem bom nas sociedades contemporâneas acaba, via este romance, por ser hiperbolizada: Dostoiévski mostra-nos como as boas almas são exploradas, violentadas, acabando destruídas; os puros de coração são vistos como idiotas, patetas que não encaixam em lado algum.

Para quem veio habituado de livros como “Crime e Castigo”, “Irmãos Karamázov” ou até mesmo “Cadernos do Subterrâneo”, este livro pode ser uma desilusão. Contudo, os traços de genialidade de Dostoiévski que procuramos estão lá! As análises profundas e perspicazes ao comportamento humano permanecem. Portanto, não deixa de ser uma leitura apaixonante e envolvente. No entanto, a meu ver, está um pouco longe de ser dos melhores trabalhos do autor. O final é bastante surpreendente, a meu ver, pela negativa.

 

« Será que existem nesta vida objectivos mais importantes e sagrados do que os objectivos paternais? Ao que pode a gente apegar-se a não ser à família? »

« Eu não sabia que um homem que nunca tinha chorado, note bem, um homem, não uma criança, um homem de quarenta e cinco anos, podia chorar. O que se passa na alma nesse instante, até que convulsões a levam? É uma profanação da alma, e mais nada! Foi dito: «não matarás», mas, por ele ter matado, também o matam? »

« O assassínio por sentença é incomensuravelmente maior do que o próprio crime. O assassínio por sentença é incomensuravelmente mais terrível do que o assassínio cometido por um bandido. Aquele a quem os bandidos matam, a quem esfaqueiam à noite, na floresta ou noutro lugar qualquer, de certeza que tem a esperança, até ao último instante, de se salvar. Houve mesmo casos em que, já com o pescoço golpeado, ainda tinha esperança, ou corria, ou implorava. Mas ali privam o homem dessa última esperança, com que é dez vezes mais fácil morrer, cortam-na definitivamente; é a sentença »

« De resto sabe-se que uma pessoa, excessivamente arrastada pela paixão, em especial se é de certa idade, fica cega de todo e está pronta a entrever uma esperança onde não há esperança nenhuma; mais ainda, perde a sensatez e procede como uma criança estúpida, nem que seja pessoa de muitas luzes »

« A mim sempre espantou a ideia de que os adultos conhecem muito mal as crianças, até os pais e as mães mal conhecem os filhos. Não se pode esconder nada dos filhos, sob o pretexto de que são pequenos e ainda é cedo para eles saberem. Que ideia triste e infeliz! E que bem reparam as próprias crianças no facto de os pais as acharem demasiado pequenas e incapazes de compreender determinadas coisas, quando elas compreendem tudo! Os adultos desconhecem que uma criança é capaz de dar um conselho extremamente importante mesmo no caso mais difícil. Meu Deus! Quando esse lindo passarinho olha para nós, confiante e feliz, é uma vergonha enganá-lo! »

« Quando, ainda no início da minha estadia na aldeia, ao vaguear sozinho, encontrava por vezes toda essa chusma barulhenta de crianças, a correrem com as suas sacolas e as suas ardósias, a gritarem, a rirem-se, a brincarem, toda a minha alma aspirava voar para elas. É verdade, comecei a ter uma sensação extremamente forte e feliz a cada encontro com elas. Parava e ria-me da sua felicidade, olhando para os seus pés pequeninos, velozes, sempre em movimento, para os rapazinhos e as rapariguinhas a correrem juntos, para o riso e as lágrimas, e esquecia-me então de toda a minha amargura. Mais tarde e durante todos aqueles três anos, não conseguia perceber como se amarguram as pessoas e para quê »

« Tal como uma mãe se alegra quando vê pela primeira vez o sorriso do filho, Deus também se alegra sempre que vê do céu que um pecador lhe reza do fundo do coração »

« A compaixão é a lei principal, e talvez única, da existência de toda a humanidade »

« O que é o liberalismo, em termos gerais, senão um ataque (razoável ou insensato – isso é outra questão) contra a ordem das coisas em vigor? »

« Para que serve a eterna tristeza dessa gente, a eterna inquietude e azáfama dessa gente, a sua eterna maldade tenebrosa (porque são maus, maus, maus)? Quem tem culpa de que sejam infelizes e não saibam viver quando ainda têm pela frente sessenta anos de vida? »

« Quem atenta contra a esmola individual, atenta contra a natureza humana e despreza a sua dignidade pessoal. Mas a organização da “esmola social” e a questão da liberdade pessoal são duas questões diferentes, embora não se excluam uma à outra. A boa acção isolada sempre permanecerá, porque é uma necessidade pessoal, a necessidade muito forte de um indivíduo influenciar outro »

« Que importância terá esta comunhão de uma personalidade com outra no destino de ambas? É que existe aqui toda uma vida e um sem-fim de ramificações escondidas de nós. (…) Lançando-se uma semente, uma “esmola”, uma boa acção, assuma a forma que assumir, oferece-se parte da nossa personalidade própria e recebe-se uma parte da outra; há uma comunhão e, com um pouco mais de atenção, pode-se ser recompensado com a sabedoria, com as mais inesperadas descobertas »

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