Livros

‘Silêncio’, Shusaku Endo

O livro aborda as dificuldades em manter a fé num ambiente hostil, concretamente o trabalho desenvolvido pelos missionários católicos portugueses no Japão, que floresceu no século XVI mas acabou por ser brutalmente suprimido.
A figura central é o padre Rodrigues, um missionário que percorreu clandestinamente o Japão através de Macau com um outro sacerdote para investigar o que aconteceu com seu ex-professor e mentor, que havia enviado vários relatórios muito promissores sobre o Cristianismo no Japão, mas que deixou de enviar cartas há algum tempo e através de outros meios se rumora que apostatou.
Vi primeiro o filme e arrependi-me de tal, porque é cópia exacta do livro e fez com que estivesse sempre a imaginar a cara dos actores nas personagens do livro. De certo modo, deu-me mais clareza de pensamento quanto ao sentido da narrativa. Sobretudo esta frase do Padre Ferreira: « Você agora vai realizar o mais doloroso acto de amor de que jamais alguém foi capaz. Os seus irmãos, na Igreja, vão condená-lo como me fizeram a mim, mas há uma coisa muito mais importante do que ser missionário: exactamente aquilo que você vai fazer agora. »

 

Introdução de Scorsese:
« (Endo) Compreendia o conflito da fé, a necessidade que a fé tem de combater a voz da experiência. A voz que impele sempre os fiéis a adaptarem as suas crenças ao mundo em que vivem, a sua cultura. (…) O Cristianismo assenta na fé, mas teve de se adaptar vezes sem conta, sempre com grande dificuldade, para que a fé florescesse. É um paradoxo, e pode ser muito doloroso: na aparência, acreditar e questionar são antitéticos. Eu, porém, penso que vão de mãos dadas. Um alimenta o outro. Questionar pode levar a uma grande solidão, mas se o questionamento coexistir com a fé pode acabar no mais jubiloso sentimento de comunhão.
Para que o Cristianismo viva, para que se adapte a outras culturas e a outros momentos históricos, não precisa só da figura de Cristo, mas também da figura de Judas. »

 

Morrer por quem é bom e simpático não custa; duro, pelo contrário, é morrer pelos miseráveis e corruptos.

Desde a infância que o rosto de Cristo era o confidente de todos os seus sonhos e aspirações. Nem submetido aos mais atrozes sofrimentos, esse rosto perdera beleza. Os seus olhos doces e límpidos, que penetravam as profundezas mais recônditas do ser humano, estavam agora fixos nele. Era um rosto que nada nem ninguém podia atingir ou humilhar.

Não depositeis a vossa confiança nos poderosos, em homens que não podem salvar. Como um sopro se esvaem e voltam ao pó da terra, acabando nesse dia os seus planos.

A solidão, na vida sacerdotal, só acontece quando não se é útil aos demais.

Sentindo fervilhar no íntimo uma irritação incompreensível, o padre cerrou instintivamente os punhos e disse para consigo: « Calma! Não te deixes enredar em sofismas. Todo o homem derrotado se engana a si mesmo para se defender ».

A expressão mais nobre no rosto de um homem é a aceitação alegre da humilhação e do insulto. Conservaria essa expressão até ao fim. Esse devia ser o rosto de um cristão entre pagãos.

« Quando sofres, sofro contigo. Contigo estarei até ao fim »

Não há fortes nem fracos… Quem pode garantir que os fracos sofram menos que os fortes?

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